20 de abril de 2009

Um pequeno comentário sobre A Velha e a Aranha




Deu-se em época onde o tempo nunca chegou. Está-se escrevendo, ainda por mostrar a redigida verdade. O tudo que foi, será que aconteceu? Começo na velha, sua enrugada caligrafia. Oculta de face, ela entretinha seus silêncios numa casinha tão pequena, tão mínima que se ouviam as paredes roçarem, umas de encontro às outras. O antigamente ali se arrumava. A poeira, madrugadora, competia com o cacimbo. A mulher só morava em seu assento, sem desperdiçar nem um gesto. Em ocasiões poucas, ela sacudia as moscas que lhe cobiçavam as feridas das pernas. Sentada, imovente, a mulher presenciava-se sonhar. Naquela inteira solidão, ela via seu filho regressando. Ele se dera às tropas, serviço de tiros.
- Esta noite chega Antoninho. Vem todo de farda, sacudu. Para receber António ela aprontava o vestido mais a jeito de ser roupa. Azul-azulinho. O vestido saía da caixa para compor sua fantasia. Depois, em triste suspiro, a roupa da ilusão voltava aos guardos. - Depressa-te Antoninho, a minha vida está-te à espera. Mas era mais as esperas do que as horas. E o cansaço era sua única caricia. Ela adormecia-se, um leve sorriso meninando-lhe o rosto. E assim por nenhum diante. Desconhece-se a data, talvez nem tenha havido, mas num dos seus olhares demorados, a velha encontrou um brilho cintilando num canto do tecto. Era uma teia de aranha. Ali onde apenas o escuro fazia esquina, havia agora a alma de uma luz, flor em fundo de cinza. A velha levantou-se para mais olhar o achado. Não era a curiosidade que lhe puxava o movimento. Assustava-lhe a sua transparência demasiada. E, de logo, lhe surgiu a pergunta que luz tecera aquele bordado? Não podia ser obra de bicho. Não. Aquilo era trabalho para ser feito por espirito, criaturamente. A teia podia só ser um sinal, uma prova de promessa. Decidiu-se então a velha surpreender o autor da maravilha. A partir dessa tarde, seus olhos emboscaram o tempo, no degrau de cada minuto. Esquecida do sono e do sustento, não houve nunca sentinela mais atenta. Até que, certa vez, se escutou um rumor quase arrependido, desses feitos para ser ouvido apenas pelos bichos caçadores. Por uma breve fresta se injanelava uma aranha. Era de um verde pequenino, quase singelo. Com vagaroso gesto a velha foi tirando o vestido do caixote. Usava os mais lentos gestos, fosse para o bicho não levar susto. - Qualquer uma coisa vai acontecer! Era suspeita que ela bem sabia. Confirmou-se quando as duas, mulher e aranha, se olharam de frente. E se entregaram em fundo entendimento, trocando muda conversa de mães. A velha sentiu o bicho pedia-lhe que ficasse quieta, tão quieta que talvez qualquer coisa pudesse acontecer. Então ela se fez exacta, intranseunte. As moscas, no sobrevoo das feridas, estranharam nem serem sacudidas. Foi quando passos de bota lhe entraram na escuta. Antoninho! A velha esmerava-se na sua imobilidade para que o regresso se completasse, fosse o avesso de um nascer. E lhe vieram as dores, iguais, as mesmas com que ele se havia arrancado da sua carne. Encontraram a velha em estado de retrato, ao dispor da poeira. Em todo o seu redor, envolvente, uma espessa teia. Era como um cacimbo, a memória de uma fumaragem. E a seu lado, sem que ninguém vislumbrasse entendimento, estava um par de botas negras, lustradas, sem gota de poeira. [Mia Couto]



Olha eu aqui de novo com um texto do Mia Couto, hehe. Achei interesantíssima essa crônica (pois é, pasmem, isso é uma crônica, apesar do tamanho) e gostaria de comentar um pouquinho da minha leitura sobre ela.
O autor do texto é assumidamente influenciado pelo Guimarães Rosa e isso é claramente perceptível nas palavrinhas e expressões que eu destaquei na cor rosa. A atmosfera do texto sugere uma mistura de devaneio com realidade. O pano de fundo do texto é uma guerra que aconteceu em Moçambique e durou bastante tempo. Muitas, mas muitas mortes aconteceram. Muitas mães esperaram sem resposta o retorno dos seus filhos que saíram para a batalha. A esperança da velha é tão grande que faz com que o leitor acredite que Antoninho vai retornar da guerra com vida. Infelizmente isso não acontece. A solidão da velhinha é de partir o coração, mas a sua esperança é invejável. Outro ponto a ser destacado é a profunda identificação da velha com a aranha e essa parte eu destaquei na cor verde... O trecho é lindo demais e de uma leveza que é possível captar o sentimento das duas. Fica então um convite a refletir sobre a esperança.
Como sempre, o Mia Couto consegue dar um tom poético a qualquer tipo de texto que escreve. Vale a pena conferir os seus escritos! Recomendo a leitura de Terra Sonâmbula, um dos clássicos dele...


13 de abril de 2009

Meus hábitos de leitora





Li no blog
cadeorevisor , adorei a ideia e resolvi imitar. Experimente você também!


1. Sempre leio no ônibus.2. Passo horas lendo sentadinha no puff da Siciliano ou em qualquer outra livraria que entro.3. Sempre levo livros comigo.4. Quando não tenho livros por perto, leio qualquer coisa que estiver ao meu alcance ( bula de remédio, panfletos, outdoors).5. Tenho mania de revisar, sou uma verdadeira caça-erros.6. Quando leio um livro, sempre marco os trechos que saltam aos olhos com lápis grafite e escrevo coisas que passam pela minha cabeça nas margens.7. Detesto ler no computador, os olhos doem.8. Gosto do cheiro dos livros.9. Quando fazia a 8ª série (atualmente 9° ano), escrevi um livro e morro de vergonha de mostrá-lo pra qualquer pessoa.10. Tenho leituras inacabadas.11. Sempre que posso, leio com um dicionário do lado.12. Quando estou em casa, gosto de ler deitada na cama ou sentada de pernas pro ar.13. Demorei a aprender a ler na escola. Minha mãe recorreu aos gibis. Essa foi a minha salvação.14. Desde criança sou fascinada por livros.15. Tenho um carinho especial pela literatura infato-juvenil.16. Chegava atrasada na escola, só pra ficar na biblioteca esperando o segundo tempo da aula.17. Lia bem mais antes de cursar Letras.18. Li algumas coisas por obrigação durante a faculdade.19. Durante o curso de Letras, descobri a minha paixão pela crítica literária.20. Acho extremamente saboroso analisar um poema, um conto, um livro.21. Sempre estabeleço relações entre livros.22. Cada livro determina o meu ritmo de leitura.23. Leio livros sobre livros, que nem o Pablo.24. Já pulei páginas.25. Já parei leituras e depois de um tempo retornei e conclui.26. Tenho uma lista enorme de livros a serem lidos.27. Morro de ciúmes dos meus livros.28. Conto as páginas e calculo mais ou menos o tempo que levarei pra terminar a leitura.29. Tenho aversão aos livros de auto-ajuda.30. Dou risada, choro, fico ansiosa, conforme a leitura me direciona.31. A leitura é um ato solitário, portanto, não me interrompa!32. Quero ter a minha própria biblioteca.33. Farei o possível para ter filhos leitores.34. Mesmo sendo ciumenta, empresto meus livros e fico feliz em incentivar esse hábito pra alguém.35. Não leio a crítica antes de concluir o livro.36. Já sonhei em trabalhar numa daquelas livrarias maravilhosas, só para ficar antenada com todos os lançamentos e ter acesso aos clássicos.37. Tenho uma relação de afetividade com alguns livros.
38.
Gosto de ser desafiada por livros que a leitura não se entrega fácil, tipo o Grande sertão: veredas, do Guimarães Rosa.

39. Ultimamente não tenho comprado livros.
40. Minha atual mania de leitura são os blogs, tanto de amigos quanto de desconhecidos.
41. Acho o cinema simplesmente maravilhoso, mas prefiro ler o livro que foi adaptado pra telona antes de ver o filme.
42. Eu leio no banheiro!!! Não há momento melhor! ( ops, não acredito que escrevi isso aqui, haha!)





"Um país se faz com homens e livros" [Monteiro Lobato]

7 de abril de 2009

Fábula





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Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos

[José João Craveirinha]
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Ontem na aula de Literatura Africana de Expressão Portuguesa, a professora leu esse poema do Craveirinha e logo de cara, simpatizei com ele pela simplicidade com que trata uma situação cotidiana das crianças que me fez lembrar a minha também. O título do poema já sinaliza que uma história vai ser contada, mas o curioso é que o meu conhecimento a respeito de fábula é que se trata de uma narrativa alegórica em prosa ou verso, cujos personagens são animais com características humanas e com um final essencialmente moralizante. Quando a narrativa apresenta seres inanimados, objetos, ela passa a se chamar Apólogo. Pois bem, o caso é que o poema não apresenta as características próprias de uma fábula... Esse é um caso a ser investigado, em breve trarei uma resposta (se é que existe uma ). Vale salientar que, na linguagem literária, todos os elementos que compõem a escrita fazem sentido, tem uma razão para estar na composição do texto, mesmo que a princípio não entendamos bem o que ele está tentando nos falar. Passemos do título ao poema... Ele começa em tom de prosa, falando de uma distinção bastante comum no universo infantil: o menino gordo e o menino magro.O gordinho é sempre o mais saudável, é o que compra e enche o balão, enquanto os meninos magrinhos apanham os restos do balão do menino gordo e fazem balõezinhos. Essa imagem dos meninos fazendo balõezinhos com o que soprou me faz lembrar das festinhas que fui quando criança e que eu fazia a mesma coisa. Quem já fez isso algum dia, lembra do barulhinho que elas fazem resultante do atrito com as mãos? ^^
O escritor deste texto costuma tratar realidades de Moçambique através de uma poesia engajada, denunciando as principais questões sociais.Essa é uma das realidades vividas pelas crianças de lá, retratada de maneira simples e com uma riqueza de imagens cotidianas.

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