26 de abril de 2011

Das pessoas e as caixas...


"Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo.
Quero pôr o bonito numa caixa com chave
para abrir de vez em quando e olhar."
(Adélia Prado)

 
Somos como aquelas caixas, objetos que usamos para guardar coisas; compartimentados, separados por categorias distintas.  Em algum lugar situam-se as boas lembranças; suspeito que fiquem na superfície, pra facilitar o acesso: pessoas que passaram por nós e suas marcas, mais fixas e permanentes do que pegadas na areia e tatuagens; cheiros que insistem em voltar, mesmo quando o frasco do perfume esvaziou; imagens que são projetadas a cada exaustivamente quando a memória aperta o play; sons que fazem a playlist da sua vida; sabores como o inconfundível bolo de laranja e o segredo tumular do tempero que ela colocava no bife acebolado.


O que fazemos com as lembranças ruins? Depende de cada caixa. Algumas preferem se amontoar de rancores, dissabores, melancolias. Quando abrimos essas caixas, sentimentos uma enorme inclinação de limpá-la, livrá-la desse peso desnecessário. Há também as caixas lacradas com voltas e voltas de fitas da resistência e o grande paradoxo é que por fora está escrito em letras garrafais:  CUIDADO, FRÁGIL! Essa nos surpreende pelo conteúdo. São admiráveis. Aparentemente  resistentes por fora, sensibilidade por dentro.
  

O tipo de caixa que somos ou poderemos ser depende do que resolvemos fazer com as coisas que guardamos lá... Se boas lembranças, amarre um laço de fita; se ruins desfaça-se, no lixo do esquecimento; se lacradas, se permita revelar a quem gostaria de saber o que tem lá dentro...


*Fonte das imagens: http://vi.sualize.us/popular/


16 de abril de 2011

Eduque o olhar...




 palavra lê
paisagem contempla
cinema assiste
cena vê
cor enxerga
corpo observa
luz vislumbra
vulto avista
alvo mira
céu admira
célula examina
detalhe nota
imagem fita
olho olha 
[Arnaldo Antunes]


Caso deseje ampliar a sua reflexão sobre o olhar uma boa pedida é o documentário Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho. Olhe, mire, veja...


14 de abril de 2011

Notas de uma observadora ou 1ª tentativa de escrever ficção...

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Aquele era um dia, apenas mais um dia em que ela trabalharia no final de semana. Os anos corridos da faculdade lhe proporcionaram a realização de um desejo interessante e saboroso: a gastronomia. Trabalhava naquele agradável lugar havia pouco. Revezava entre o preparar os sabores e servi-los aos degustadores. Sempre interagindo com os clientes, ora falando, ora observando. Apenas observando.
Foi então que duas cenas paradoxais se deixavam vistas diante dela. De um lado, um casal feliz. O garoto dedilhava a agradável melodia que ouvia do som produzido pela banda no braço da sua garota, como se ali residisse a partitura daquele momento. Talvez encontrasse nela cada nota, como aqueles escritos em Braille; pelo tato. A garota sorria com toda a expressão que lhe era possível ali, embalada por aquelas doces melodias, acompanhada daquele belo garoto a sorrir com os olhos. Nesse momento, pensei ter escutado ali uma gostosa canção Don't Know Why, que no piano era tocada com maestria pelo músico da noite, só o instrumental, sem a voz da Norah Jones:

 Do outro lado, ela viu uma figura taciturna; tão ou mais amargo que o café sem açúcar que bebia e intercalava com uma bebida forte. O taciturno (vou chamá-lo assim aqui por diante) entorpecia a sua realidade, parecia que a atmosfera da mesa ao lado deixava mais a mostra a sua dor, ele se contorcia a cada gesto de felicidade que presenciava da outra mesa. Era visível (e lamentável) a sua dor, pois escorria pela face, como uma cachoeira em dias de maior fluxo. Pra esse momento, pude ouvir nitidamente outra famosa canção, que casava direitinho com aquela cena, Chega de Saudade, do Jobim:

De um lado, era possível visualizar um momento feliz, do outro uma solidão extrema. Uma observação, dois antagonismos. Assim é a vida.
A partir daquela noite, os versos dedicados à Luiza por Jobim que ali na parede do ladinho da mesa daquele casal se encontrava estampado, nunca mais foram os mesmos, pois adquiriram um brilho ainda mais radiante do que o dos raios de sol ao amanhecer...
Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza

Notas da autora:Esta pode ou não ser uma obra de ficção.

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