26 de junho de 2008

Cartas ridículas,escritores idem








Quem nunca escreveu uma carta de amor (ridícula) atire a primeira pedra! Se as cartas são ridículas, pode-se concluir que os seus autores também o são. Não importa a idade, o sexo, a classe social, todos somos ridículos quando escrevemos cartas de amor. O amor torna toda e qualquer carta ridícula.

Quando se está amando, nos tornamos uma mistura contraditória de razão e emoção. Cada palavra escrita forma sentenças que ganham tom de lirismo. É como se em cada palavra o escritor quisesse se materializar para o ser amado.
Há quem diga que as cartas de amor estão fora de moda. O advento da tecnologia dos emails e sms calou a voz dos amantes descabelados? Creio que não! No que diz respeito ã agilidade, os correios eletrônicos são mais vantajosos e são tão receptivos ã linguagem dos apaixonados quanto às cartas manuscritas. É possível ser romântico atualmente, isso nunca sairá de moda.
Fernando Pessoa, através do seu heterônimo Álvaro de Campos, escreveu o seguinte:

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi no meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor se há amor,
Têm de ser
Ridículas

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

( Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


O poema trabalha o adjetivo ridículo em vários sentidos. No dicionário a palavra significa: Que desperta riso ou escárnio; insignificante; pessoa ou coisa ridícula.
Na primeira estrofe, a voz do senso comum diz que as cartas de amor são ridículas. O elemento ridículo é caracterizador das cartas de amor. Nesse caso, o adjetivo é empregado no sentido romântico que denota meloso, sentimental, que é justificado pela forma como os amantes articulam a linguagem nas cartas (os apelidos, a linguagem infantilizada e as frases significativas) que, quando vistas por quem está de fora da relação soam exageradamente sentimentais. Em seguida o eu - lírico afirma na terceira estrofe que o amor é o elemento fundamental que torna as cartas românticas ridículas, afinal, os amantes não se envergonham dos seus sentimentos e muito menos percebem que estão sendo “ridículos”.
Na estrofe seguinte, o eu - lírico afirma que as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Nesse caso, o adjetivo recebe um sentido pejorativo, pois essas pessoas nunca se deixaram levar pelo amor e por isso zombam dos amantes. Na estrofe cinco, o eu – lírico mostra-se saudoso do tempo que escrevia cartas ridículas. A expressão sem dar por isso ilustra bem que quando se ama, a razão e a emoção se revezam de forma tal que o apaixonado nem se dá conta que deixou a razão de lado. As últimas estrofes mostram a visão de quem viveu um grande amor e que hoje a lembrança dessas cartas se tornou ridícula. Quando o amor acaba, o reencontro com o discurso amoroso perde o significado, a razão toma as rédeas da situação. Por isso o eu – lírico encerra afirmando que o amor justifica o discurso das cartas de amor e coloca o pensamento entre parênteses, mostrando assim que para quem está dentro da relação as palavras esdrúxulas e os sentimentos esdrúxulos são naturalmente ridículas, ou seja, são perfeitamente justificáveis.
Destaco aqui, a fim de estabelecer pontos de contato entre o poema e as cartas de amor, trechos de duas cartas, uma escrita pelo próprio Fernando Pessoa a uma senhora de nome Ophélia Queiroz, anos antes de o seu heterônimo escrever o poema Cartas de amor e a outra escrita por Graciliano Ramos à sua segunda esposa Heloísa nos tempos de namoro/noivado, publicadas por ela no livro intitulado Cartas (1981) alguns anos após a morte do escritor. Segue a carta de Pessoa:

Meu amorzinho, meu Bébé querido:

São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha três noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horríveis que tenho passado em minha vida. Felizmente parra ti,amorzinho, não podes imaginar.
[...]
(...) Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espírito em que tenho vivido estes dias,estes dois últimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausência, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te vê, meu amor, há quase três dias!

Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta – a que mandaste hontem pelo Ososrio? Comprehendo que estivessses também com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amor, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d’elle, quando não tens para isso razão nenhuma?
[...]
(...) Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos,muitos,muitos,muitos,muitos beijos do teu,sempre teu,

Fernando

Alguns estudos apontam para a não existência da Dona Ophélia e que as cartas de amor possivelmente tenham sido um exercício literário deste complexo escritor. Verdadeira ou não, o propósito é destacar o elemento ridículo do discurso amoroso da carta. O autor dessas linhas não economizou palavras e confissões amáveis para a sua receptora, sendo assim perceptíveis nos adjetivos e, sobretudo nos diminutivos empregados: meu amorzinho, meu Bébé querido, minha bonequinha. Outro ponto a ressaltar é a tentativa de traduzir em palavras os sentimentos vivenciados pela ausência da pessoa amada e o desespero ao imaginar que o outro duvida dos seus sentimentos. A repetição do advérbio “muito” mostra a ânsia pela presença da mulher amada e tenta através da repetição acentuar ainda mais a idéia de intensidade sugerida pela palavra. A linguagem amorosa da carta retoma o poema,principalmente o verso que diz: ( Todas as palavras esdrúxulas/ Como os sentimentos esdrúxulos,/ São naturalmente / Ridículas.), e são mesmo, principalmente aos olhos de quem observa a relação de fora. O senso comum diria que esta carta é ridícula, pois exagera na linguagem adocicada e infantilizada. Mas outra parte do poema sustenta: As cartas de amor se há amor, /Têm de ser /Ridículas. O amor nos torna ridículos!
Observemos a seguir um trecho da carta de Graciliano:

(...) Romântico! É exato, creio que me tornei romântico. Pior: tornei-me piegas, idiota. As minhas duas primeiras cartas são efetivamente um primor de maluquice. Entretanto, refletindo bem, reconhecerás que não tens razão. O estilo é pulha, com efeito, mas na essência tudo aquilo é verdadeiro. Realmente, que há de estranho em que um individuo ame com ternura, com saudade, com indignação e com ódio? Ficaste espantada! Pois eu me espantaria se te pudesse amar de maneira diferente. Quererias que, tendo motivo para indignar-me, para odiar-te às vezes, todos os meus sentimentos ruins desaparecessem por milagre e eu me transformasse num santo? Não me transformo, felizmente. Sabes o que acontece? É que novos hóspedes de minha alma brigam com os que já lá estavam alojados: surgem contendas medonhas, a policia não intervém – e aparecem cartas como as que te escrevi.
[...]
Passa de meia-noite, meu amor, e isto não é carta: é romance. Há quase três horas que te escrevo! Como terás coragem de ler semelhante estopada! Pobrezinha!
[...]
Ponho toda a ternura de que sou capaz em beijar-te o retrato. Teu. Graciliano. Palmeira, 24 de janeiro de 1928.


Graciliano se reconhece romântico em sua carta; o romântico piegas, meloso e apelativo. O que torna esse ponto da escrita dele com o poema de Pessoa é que o autor se assume ridículo porque está amando. O verso que dialoga com a carta diz assim: As cartas de amor se há amor, /Têm de ser /Ridículas. Graciliano se justifica: O estilo é pulha, com efeito, mas na essência tudo aquilo é verdadeiro. Realmente, que há de estranho em que um individuo ame com ternura, com saudade, com indignação e com ódio?Em outras palavras, qual o problema de alguém amar e expressar esse sentimento ao ser amado? Qual o problema em ser ridículo? O curioso nesse trecho é que o produtor da carta, mesmo envolvido sentimentalmente, reflete a respeito da própria linguagem. Em seguida, ele tenta explicar as contradições que ele vive em decorrência da luta razão x emoção e que fazem surgir cartas como as que ele possivelmente escreveu anteriormente a mulher amada: Sabes o que acontece? É que novos hóspedes de minha alma brigam com os que já lá estavam alojados: surgem contendas medonhas, a policia não intervém – e aparecem cartas como as que te escrevi. Ele ainda compara a sua carta a um romance, devido o seu tamanho exagerado e a despedida da mesma é tão romântica quanto a de Pessoa.
As duas cartas nos levam a refletir sobre o amor e os efeitos que eles podem causar nos seres humanos. O amor transforma um simples mortal em um escritor de belas composições de linguagem que beiram ao ridículo. Quem ama, não tem vergonha de expressar os sentimentos, mesmo falando como criança e servindo de critica para os de fora.
Muitas são as histórias de casais que amaram por correspondência. Todas elas fizeram rir e chorar muitos corações apaixonados. A tecnologia facilita a vida dos amantes através da sua agilidade e até mesmo a praticidade dos sites que contem modelos de cartas de amor. Não deixemos que essa tradição fique enterrada. Não sejamos ridículos. Vamos abrir as portas para este amor que domina o discurso e nos torna ridículos ao ponto de adquirir uma visão de mundo essencialmente poética.


Débora Rosane

21 dias com Elizabeth Elliot: Nada é meu (19)

 "If we hold tightly to anything given to us unwilling to allow it to be used as the Giver means it to be used we stunt the growth of...

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