31 de maio de 2011

Pedaços de leitura: Terra Sonâmbula, de Mia Couto


Citações presentes na primeira página do livro:

Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho. (Crença dos habitantes de Matimati)

O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro. (Fala de Tuahir)

Há três espécies de homens:
Os vivos, os mortos e os que andam no mar. (Platão)

Contar histórias é algo milenar, advém das mais remotas e passadas tradições humanas. Terra Sonâmbula é um bom exemplo disso. A história se passa no Moçambique pós-independência durante uma terrível guerra civil. Os personagens, um velho chamado Tuahir e um menino por nome Muidinga encontram um ônibus abandonado que servirá de abrigo para ambos. Ao lado do veículo encontram uma mala que contém os doze cadernos de Kindzu, outro fugitivo da guerra. Tal caderno é repleto de histórias fantásticas que remetem poeticamente à tradição africana. Ainda não conclui a leitura, mas já estou encantada e fiz uns recortes das primeiras partes do livro:


Capítulo I - A estrada morta
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando ao vindo por não ido, à espera do adiante. (p.9)
O menino estava já sem estado, os ranhos lhe saíam não do nariz mas de toda a cabeça. O velho teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar. Muidinga se meninou outra vez. Esta segunda infância, porém, fora apressada pelos ditados da sobrevivência. (p.10)
Parece que o fogo gosta de nos ver crianças. (p.11)


Primeiro caderno de Kindzu: o tempo em que o mundo tinha a nossa idade
A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. [...] De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos. (p.17)
Ficava a olhar o antigamente. (p.17)
[...] Melhor sentinela é não ter portas. [fala do velho Tuahir] (p.17)
Quem sabe nossas barrigas se torcessem de aperto: dos nadas de nossos prantos, afinal, sempre restava uma qualquer coisinha. (p. 19)
Sua voz nos fazia descer uma tristeza, olhos abaixo. (p.19)
[...] tombou sobre o chão com educação de uma folha. (p.20)

Capítulo II – As letras do sonho
O respirar dos adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra alma. (p. 35)
[..] medo espreita pela fresta das pálpebras [...] (p.35)
[...] pé posto em cautela. (p.35)
Quando é que cores voltariam a florir, a terra arco-iriscando? (p.37)
Mais uma vez contempla a palavra escrita na estrada. Ao lado, volta a escrevinhar. Lhe vem uma outra palavra, sem cuidar na escolha: “LUZ”. Dá um passo atrás e examina a obra. Então, pensa: “a cor azul tem o nome certo. Porque tem as iguais letras da palavra ‘luz’, fosse o seu feminino às avessas” (p.37)

Segundo caderno de Kindzu: uma cova no tecto do mundo
[..] no mar, serás mar. E era: eu me peixava, cumprindo sentença. (p. 41)







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MIA, C. Terra Sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


10 de maio de 2011

Gênese.

 



Você pode fazer mais com um castelo na narrativa do que com o melhor castelo de cartolina que jamais se viu sobre a mesinha de uma criança.[1]


 Foi na narrativa que ela encontrou o sabor das primeiras coisas. As primeiras cores foram os caracteres em branco e preto que saltavam a cada momento que os olhos passavam pelas palavras. Os primeiros aromas foram sentidos vieram das florestas dos contos de fadas, com as suas floras e faunas encantadas. O primeiro toque foi para sentir o personagem na textura do papel e atestar que ele era de verdade mesmo (embora soubesse que ele é parte de uma coerência interna, uma verdade ficcional).O primeiro som foram vozes, aquelas vozes que juramos ouvir quando cada personagem dialoga, pensa, canta, sussurra, GRITA.
Ela descobriu que poderia fazer o que quisesse numa narrativa e decidiu que se tivesse que fazer, faria o melhor que pudesse; guardaria as primeiras sensações de todas as primeiras coisas que passaram por ela numa narrativa amarradinha, levemente tecida com os melhores sabores, aromas, cores, toques e sons que ela capturou com o  c o r a ç ã o.





Fonte da imagem
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[1] LEWIS, C. S.Surpreendido pela alegria.Traduzido por Eduardo Pereira e Ferreira - São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

5 de maio de 2011

O que passou a ser. Em transformação...


Habito os dez mil e quinhentos universos

sugeridos pela física quântica

satisfeita de ser

tantas em tantos

                           (Diva Cunha)



1º Universo,o das bobices.


Era uma vez ela, uma menina. Há tanto tempo esperada; a torre do castelo já tinha espaço para abrigar seus devaneios infantis, cercada de afeto, mimos, cuidados. Seus pequenos prazeres: canções lilases, longas conversas com objetos disfarçados de brinquedos e quitutes da avó. Ela, a menina, era capaz de montar quebra – cabeça com nuvens, mas tinha medo do escuro. Pra isso achou uma solução: descobriu que poderia morar num livro.

Seu primeiro e grande amor foi um livro. Toda semana aguardava ansiosamente pelo encontro com o seu amado. Sentia todos os sintomas de paixonite. Frio na barriga. Ria do vento. Sentia saudade, mesmo estando perto. Abraçava forte. Gostava do cheiro. Com ele, só com ele ela era muitas numa só: a mocinha, a princesa, a fada.  Nunca criou histórias, pois se contentava com as que lhe contavam.

Gostava de observar, quieta. Brincou de boneca, atuou com elas, fez de conta. Subia no pé de seriguela, comia as frutinhas até doer os dentes. E assim, de esconde-esconde em esconde-esconde aproveitou ao máximo as bobices.



Eu só não queria significar. Porque significar limita a imaginação. (Manoel de Barros)



2º Universo, o das definições.



A moça, outrora menina, saiu das coisas próprias de criança.Começou a viver. Timidamente. Sem correr muitos riscos, pra não machucar. Seus pequenos prazeres agora são: música -sem rotulações-, densas leituras, filmes que poucos aplaudem de pé, raros (e poucos) amigos, pouca satisfação com muita coisa. Uma idosa de quarto de século, por vezes incompreendida, outras nem tanto.
Até que...

Apertou o play, fechou os olhos e se jogou, sem garantias. Com medo, muito medo. Quebrou a cara; juntou os pedaços a seu tempo, sozinha, lentamente e vivendo, descobriu: que a mágoa é mais amarga que jiló; escolher errado é como tatuagem arrependida: difícil de tirar e geralmente deixa marcas. Fruta madura tem que ser tirada do pé, isso dói, mas é proveitoso.Nas palavras de Guimarães Rosa, viver é perigoso, é etcétera.



  Mudei muito, e não preciso que acreditem na minha mudança para que eu tenha mudado. (Caio Fernando Abreu)





3º Universo, o das aspirações.



Fingir que o amanhã ainda não chegou. Retomar caminhos, repensar outros. Descobrir outros pequenos prazeres.



"Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo." (Caio Fernando Abreu)



4º Universo (em transformação)











Good People (Spoiller Alert!), de David Foster Wallace

Leia o texto a seguir e somente após ter feito isso, volte e leia a análise: GOOD PEOPLE Two young Christians and an unwanted pregnancy ...

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