28 de julho de 2009

Uma lição passada pelo mestre...



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A lição de poesia
João Cabral de Melo Neto

1
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.


Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão na mesa:


nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.


Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.


Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada


A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis – naturezas vivas.


E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.


Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a dor ar.
( 1942- 1945)

Essa lição que o poema traz é muito reconfortante para nós, pobres mortais... Quem nunca teve
--> Toda a manhã consumida / como um sol imóvel / diante da folha em branco? Já tratei sobre o assunto no post dedicado aos mitos que cercam o ato de escrever e vimos que até os grandes e consagrados escritores sofrem/sofreram enquanto produzem/ produziam as suas obras.Cada texto que eu consegui produzir na vida foi praticamente um parto! O sangue corre das veias, pelo esforço diante da página em branco, exatamente como ele descreve no poema.O texto também mostra que toda a escolha lexical é pensada detalhadamente, pois elas não estão ali por acaso.Depois dessa, podemos respirar aliviados!

3 comentários:

Flávio Américo disse...

É verdade, menina, escrever é, muitas vezes, apavorante. Mas, tem vez, que é colocar para fora o que dói por dentro.

Seus post sobre a escrita são ótimos!

Nathi disse...

Amei a nova cara do blog!
Ficou muito bom, já gostava antes, mas como boa inquieta que sou,amo mudanças, essa foi das boas!

^^

Sobre o poema que nos serviste, bom, sabe, esto pensando muito em me afastar um pouco do blog, acho que estou me conformando com a mediocridade dos meus atuais textos, quero crescer!
Quero aprender!
Não sei, estou meio confusa!
Bom, você sempre me dando inspiração, hoje, pra olhar pro papel e encara-lo, não me afuguentar!
Obrigada!
Beijo* da Nathi

Mimi disse...

E essa data, ele levou 3 anos pra escrever o poema? u.u

21 dias com Elizabeth Elliot: Nada é meu (19)

 "If we hold tightly to anything given to us unwilling to allow it to be used as the Giver means it to be used we stunt the growth of...

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